Metanoia

By Pati Postinghel

“Retrovisor nos mostra o que ficou
O que partiu, o que agora só ficou no pensamento
 Retrovisor é mesmice em trânsito lento
Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas
 Mostra as ruas que escolhi
Calçadas e avenidas
Deixa explícito que se for pra frente
 Coisas ficarão pra trás
A gente só nunca sabe que coisas são essas”
 Fernando Anitelli






     Cheguei do escritório a pouco mais de uma hora. Engraçado... Pediram-me pra esperar a chuva passar. Não estou acostumada com pessoas que se preocupam comigo. Nunca foi assim. Não esperei.
      Sentei no meio-fio em frente a minha casa. As gotas da chuva que outrora era forte e pesada, agora estão tão calmas que parecem acariciar meu rosto enquanto penso nos flashes rápidos que o trânsito lento me trouxe.
      Sabe o que é realmente estranho? Perceber, depois de dez longos anos, que a culpada de tudo aquilo não era eu. E me martirizei tanto...
      Ainda lembro-me das vezes que meu velho pai, sentado à beira da lareira, me acusava de tudo que aconteceu. Cada lembrança dói como uma faca de serra cortando minha pele macia.
      “Sua mãe morreu para te dar a vida”. “Meu alcoolismo é culpa tua Melissa”.
      Gosto mesmo é de lembrar as vezes que a vó Luzia falava “e aí ruiva, tá chorando por quê? Por acaso foi você que desceu a dose pra ele?”. Isso era bom. Por alguns instantes o elefante acomodado em minhas costas saia de mim. Meses atrás, no velório dele, vó Luzia chegou ao meu lado, apontou para o caixão e disse:
      - Filha, você não carregou a arma. Você não apertou o gatilho. Algum dia deu um cowboy na mão dele e o deixou embriagado? Por que se culpa tanto?
      Já tem meses que tento responder a essa pergunta e não consigo. Talvez tudo tenha me ferido tanto, que eu apenas aceitava as coisas, pegava todos aqueles sentimentos pra mim e arquivava.
      O fato agora é: estou sozinha, sem cobranças, sem novos machucados, apenas com velhas feridas que precisam cicatrizar. Por muito tempo tentei ser notada, por muito tempo tentei ser eu. Mas hoje vejo que nunca fui ninguém. Era apenas um amontoado de culpa e negação. Quem sabe um dia as coisas mudem... Ou quem sabe já estão mudando? Em outros tempos a conversa que estou tendo agora com o meu eu não aconteceria. O que mais me intriga é ter passado tanto tempo amargurada por culpas tão absurdas. Talvez a aceitação possa ter sido causada pela minha imaturidade. Uma juventude, que de alguma forma foi tirada de mim, pois meu rosto apresenta feições de uma pessoa sofrida. Mas isso não importa mais.
      O importante é o “agora”, e o que eu vou fazer desse “agora”. Ele pertence apenas a mim. Cada passo daqui pra frente será tomado sem medo da vida, sem medo da luta, e muito menos sem medo de todas as feridas que ainda estão por vir, pois cada parte de mim conta uma história, cada gota de lágrima que dança no meu rosto carrega uma lembrança. A maioria das gostas dançam uma valsa triste e melancólica. Neste momento, cabe apenas a mim a escolha do ritmo que elas continuarão a bailar. Quem sabe não comecem a dançar um jazz extasiante?!
 

E o acaso meus amigos... Não existe! (parte 3)

By Pati Postinghel


"SUPONHO QUE ME ENTENDER NÃO É UMA QUESTÃO DE INTELIGÊNCIA, E SIM DE SENTIR..."
CLARICE LISPECTOR




É estranho quando você pára e pensa que faz determinadas coisas todos os dias, passa por diversas situações bizarras e nem presta atenção. Esse era o pensamento de Pedro no exato momento em que Rosana entrava no coletivo. Ela era uma mulher que nós podemos chamar de "saliente". Rosana entrava no ônibus todos os dias dois pontos a frente de Pedro, e em consequência disso acabava por achar o mesmo lotado. E todos os dias era a mesma história, a mesma ladainha, para sermos mais francos. Ao entrar já não tinha o dinheiro trocado e também não recebia o troco de cinco centavos que lhe era de direito, um dos fatos que já começava a irritá-la. Ao passar pela roleta, seu corpo grande ficava preso e por várias vezes chegava até a ser esmagado um pouco. Tormento findado? Não... Começava então aquela parte em que o balanço é muito forte e se esbarrar em alguém é o mínimo do que poderá acontecer.
Rosana encostou o corpo pesado ao lado do assento de uma jovem bem arrumada, provavelmente com muito mais cultura que ela e com muito mais egoísmo. A troca de olhares teve início logo depois. Olhares fortes, marcantes, quase que chingamentos. Aquele barulho ao fundo tirou Rosana do transe, era hora de descer, ir para casa depois de um dia de trabalho exaustivo.
Pedro observava tudo aquilo com uma atenção que nunca tinha tido antes. Aquelas coisas corriqueiras que aconteciam todos os dias no coletivo e nem tinham importância. Há anos frequentava aquela condução, sempre as mesmas pessoas, sempre os mesmos barracos, sempre as mesmas confusões sendo protagonizadas por Rosana, mas ele não percebia. Ele sempre foi mesmo assim, do tipo que só percebe que algo diferente ocorreu porque alguém acabou comentando. Porém, depois daquele encontro com Luisa, a morena de seus sonhos, Pedro tornou-se um tanto observador. Será que é necessário então que as pessoas sofram um baque para que haja mudança? No fundo todas as pessoas possuem um outro alguém, uma outra personalidade desconhecida, que só aflora quando precisam de uma válvula de escape. E na maioria das vezes isso nem sempre é uma coisa boa.
Pedro estava diferente depois daquele encontro. Não sonhava mais com ela, não a tinha mais em seus braços a noite, não possuía seu corpo, não via seus olhos ardendo de desejo. Mesmo que ela fosse apenas um sonho, que talvez não fosse real, ele a amava. A parte boa era que Pedro eliminou de seus pensamentos a parte dos lençóis rubros, manchados pelo sangue de sua amada.
Mas por que os sonhos tiveram fim? Por quê? Ele pensava nisso todos os dias antes de dormir. Foi numa dessas noites que Pedro começou a ter resposta da sua pergunta. Acordou transpirando muito, ofegante e muito assustado. Pegou um pouco da água que tinha deixado em cima da humilde escrivaninha de seu quarto. Começou a colocar em um papel tudo que conseguia se lembrar daquele sonho conturbado. Era tudo muito vago. Depois de pensar muito, de tentar buscar imagens mais claras, seu papel apresentava observações estranhas.

“Céu muito nublado, pessoas correndo para muito longe, desespero...
Uma criança me chamando para perto de si. Não sei quem é a criança.
O dia está claro agora, a criança me contou um segredo.
Não lembro o segredo. A criança agora escreve a palavra "real" na areia."


Pedro deitou na cama com as anotações do sonho nas mãos, tentou dormir, mas não dava... Não podia parar de pensar naquele segredo, como poderia esquecer a parte principal do sonho e aquela palavra na areia, começava agora uma nova fase. As descobertas.



CONTINUA...

PS: Há uma homenagem feita entre linhas, para pessoas que eu gosto muito, que fazem parte de mim. Não preciso citar nomes, não preciso falar de forma explicíta. Pois essas mesmas pessoas, ao lerem perceberão o que eu disse, e verão o relato de nossos dias. Alguns dias bons, outros melhores ainda. Obrigada.
 
Obrigado por ter lido até aqui, nem todos chegam a última linha de um blog. O Vaisifu fica feliz por sua visita!