Lembre-se de seu tempo.
Lembro-me bem de quando éramos crianças... Sempre ajudávamos uns aos outros.
Nas brincadeiras, nos afazeres domésticos, em tudo que papai nos mandava fazer. A diferença de idade entre os oito era pouca, por isso que tudo que pensávamos, de certa forma, adequava-se normalmente a todos.
Minha irmã mais nova era a mais bonita. Branca, olhos claros, e um cabelo negro que refletia a luz do Sol. Era a mais sapeca, talvez a mais esperta. Sabia como ninguém conduzir meu pai. Afinal, ela era a princesinha que ele tanto esperava, depois de uma gravidez de alto risco e a morte inesperada de minha mãe no parto.
Ah... Minha mãe! O tempo é um assassino cruel. Um assassino das boas memórias que tenha. Quando penso no rosto dela, aquele rosto juvenil, que não demonstrava o sofrimento que passava, quando me lembro... Desce pelo meu rosto uma gota amarga que morre em minha boca. Mais são poucas as feições dela que ainda posso descrever com clareza: alta, esguia e bela, muito bela. Eu me lembro muito bem de suas mãos, do seu leve toque em meu corpo de criança. Era como uma pluma que a brisa balança, com uma calma e uma suavidade sem tamanho. E as canções?! Como posso esquecer-me das canções? Todas as noites em nosso quarto, ela vinha num andar quase dançante por entre as camas já ocupadas. Por alguns minutos sua voz de sílfide iria tomar conta do aposento, tornando nossa cama um pedaço do céu, um pedaço das nuvens de algodão que ficavam sob nossos corpos anestesiados. E aquela cantiga de ninar se tornava uma chave para libertar nossas almas, libertar os desejos que moravam ali dentro, que em forma de sonhos transportava-nos a um mundo surreal.
Nunca tive capacidade para aceitar perdas. Nunca tive a capacidade de entender que nada é eterno, principalmente as coisas boas, essas que duram, na maioria das vezes, milésimos de segundos e acabam para nunca mais voltar. Nunca quis admitir minha fraqueza, admitir uma dor incontrolável no peito, admitir que estivesse sendo corroída pela saudade da pessoa que me mostrou o colorido do mundo.
Essa foi a perda de nossas vidas. De todos nós.
Com o passar do tempo, tudo foi voltando a acontecer. Meus irmãos e eu já sabíamos suprir uns aos outros, e meu pai, esse já abandonara á vida dos vícios que encontrou depois do óbito de sua amada. Nós nascemos, crescemos e nos criamos.
Hoje, aqui estou. Velha e com os efeitos do tempo (novamente o tempo!). Na mão tenho uma caneta preta que usei para esse momento nostálgico. No corpo tenho um velho agasalho de lã que me protege do frio, e me faz pensar cada vez mais em como a velhice é uma droga, e como estou debilitada. Na cabeça, tenho um lenço de veludo que cobre as falhas do meu couro cabeludo, que já se faz totalmente branco. E no peito... No peito tenho um coração velho, batendo cada vez mais lento, bombeando sem força meu sangue. Pulsando em minhas veias estão as amarguras, as felicidades e todas aquelas vezes que chorei, sorri, e que sofri, junto com aquela saudade que o tempo me fez esquecer. Não, talvez esquecer não seja a palavra certa, reprimir, sim é essa! Junto com aquela saudade que o tempo me fez reprimir...


Se kiser cobrar direitos autorais depois me avisa...
meche bastante com os sentimentos da gente... e eu tava ouvindo uma música, que se encaixa no meio desta tocante história...
"Disseste que se tua voz tivesse força igual/À imensa dor que sentes/Teu grito acordaria/Não só a tua casa/Mas a vizinhança inteira."
ah, e a parte de que se refere a cama a um pedaço do céu... eu me lembro de ja ter sentido esta sensação =)
muito bom pati, parabéns
beijao linda
vc tem talento...
Vo passa por aqui mais vezes
bj
vc tem futuro menina! tenho orgulho de ser teu camarada!!
bjo
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